O FIM DA CRACOLÂNDIA OU APENAS UM BLEFE DO GOVERNO? VICE-PREFEITO, MELLO, UMA VOZ QUE NÃO SE CALA!
EDITORIAL
OLHAR 360° — MÁRIO MARCOVICCHIO
Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 21 de Novembro de 2025

As palavras têm peso, mas na Cracolândia, a realidade se impõe com a dureza do cachimbo de crack. A recente proclamação do governador Tarcísio de Freitas, feita em tom de vitória nas redes sociais, de que “a Cracolândia acabou”, soa mais como um mero déjà vu político do que como um diagnóstico fidedigno da situação. Este anúncio, celebrado por seus auxiliares, ignora a história recente e a sabedoria acumulada de quem vive, trabalha e sofre com o drama do Centro de São Paulo. A precipitação não é novidade, mas seu potencial de mascarar um problema crônico é sempre perigoso.
O tom mais comedido da Prefeitura, que optou por falar em “esvaziamento” da região dos Protestantes, também não reflete a totalidade do cenário. Entre a euforia do Palácio dos Bandeirantes e a cautela da gestão municipal, existe um abismo: a verdade das ruas.
A Memória do Centro Contesta o Discurso Oficial

Para que uma análise da Cracolândia seja séria, ela precisa necessariamente consultar aqueles que acompanham o território há décadas, algo que o poder público insiste em negligenciar. Um desses olhares é o do advogado Mário Marcovicchio, cuja trajetória de mais de meio século se entrelaça à vida da 25 de Março e da Avenida Senador Queirós.
Como ex-presidente do CONSEG 25 de Março e editor do Jornal25News, Marcovicchio é uma das fontes mais respeitadas sobre a gênese e a evolução do “fluxo”. Ele assistiu a todas as fases: o surgimento, a expansão, as inúmeras operações de dispersão e, crucialmente, os sucessivos reagrupamentos que sempre trouxeram a miséria de volta ao mesmo eixo territorial.
Sua leitura, técnica, histórica e embasada no convívio diário, é inequívoca: a Cracolândia não acabou. O que se assiste é, mais uma vez, um movimento de dispersão forçada. Os pequenos agrupamentos, fugindo da pressão policial, migram para ruas adjacentes, aguardando o inevitável relaxamento da vigilância estatal para retomar os pontos tradicionais. Vimos esse filme nos governos Alckmin, Doria, Kassab, Serra e Haddad. A diferença agora parece estar apenas na embalagem midiática.
A Fissura na Base: As Críticas Incendiárias do Vice-Prefeito, MELLO. "A Verdade Nua e Crua".

A tese da dispersão é reforçada por uma das vozes mais experientes em segurança pública da própria base governista: o vice-prefeito Coronel Mello Araújo. Sua opinião não é baseada em política de gabinete, mas em vivência operacional direta. Ele foi comandante da ROTA no Centro, atuando na linha de frente em confrontos, operações e na inteligência de enfrentamento ao tráfico.
Com essa autoridade inegável, Mello Araújo não hesitou em desferir críticas contundentes à condução do tema por Tarcísio e Nunes. Ele afirmou publicamente:
Houve desvio de recursos destinados aos dependentes químicos.
A narrativa oficial sobre o suposto “fim” da Cracolândia foi uma “grande enganação”.
O governador deveria ter “caminhado pela Cracolândia ao lado do prefeito” para conhecer o cenário real.
Essas declarações representam uma fissura explícita e profunda dentro do bloco governista. Ao colocar a experiência da rua contra o marketing político, Mello Araújo não apenas desautoriza os chefes do Executivo, mas também joga um balde de água fria em qualquer projeto de candidatura de Ricardo Nunes ao Governo em 2026. A autoridade de quem conhece o Centro a fundo se sobrepõe à conveniência política.
O Exército Invisível Que o Governo Ignora. Os vigilantes.

No centro da controvérsia, está o erro mais grave dos discursos governamentais: o desconhecimento do papel da sociedade civil organizada.
O avanço, ainda que tênue e momentâneo, só foi possível graças a um contingente silencioso e permanente que atua como a verdadeira espinha dorsal da ordem na região. Este “exército invisível” é composto por:
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CONSEGs (Conselhos Comunitários de Segurança).
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Síndicos, zeladores e comerciantes que monitoram o risco 24 horas por dia.
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Moradores e trabalhadores que acionam autoridades e evitam invasões.
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Grupos de WhatsApp e equipes de vigilância comunitária.
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Líderes como o Francisco do Metrô.
São essas pessoas que agem como fiscais da ordem urbana, auxiliando vulneráveis e registrando movimentações. Sem a pressão constante e a atuação diária deste grupo, nenhuma política pública teria obtido sucesso.
Ignorar ou minimizar o papel deste "exército" é mais do que um erro estratégico; é um desrespeito político com quem realmente mantém o Centro de São Paulo funcionando.
Conclusão: A Verdade Não Está no Vídeo, Mas no Asfalto. NÃO ESTÁ NO DISCURSO PRÉ-ELEIÇÃO, mas na realidade dos fatos.
A Cracolândia não sucumbiu a um vídeo de redes sociais ou a uma declaração apressada. Se há um respiro momentâneo, ele se deve: à pressão incessante da sociedade civil organizada, à memória histórica de líderes como Marcovicchio, e à experiência operacional de agentes públicos que conhecem o terreno, como Mello Araújo.
Soluções simplistas e o marketing de resultados não podem resolver um drama social que atravessa mais de duas décadas, cinco governadores e seis prefeitos. A verdade, implacável, é sempre a mesma: quem vive o Centro sabe mais do que quem o visita apenas para dar entrevistas. O fim da Cracolândia só poderá ser celebrado quando o "fluxo" não for apenas dispersado, mas definitivamente desmantelado e substituído por uma rede de acolhimento e segurança pública que, até agora, não saiu do papel.
Mário Marcovicchio, Advogado,Jornalista, ex-presidente do Conseg 25 de Março e Sé. Diretor do Sindicatos dos Tecidos e Armarinhos do Estado de SP, cidadão exercendo a cidadania.



