⚖️ Tragédia em Higienópolis: o advogado que lutava pela justiça e foi vencido pela violência
Matéria da Folha de S.Paulo expõe, com dor e verdade, a brutalidade e a infelicidade que cercaram os últimos instantes de vida do advogado Luiz Fernando Pacheco, morto a poucos metros de casa, em Higienópolis.
A tragédia emociona e revolta uma cidade que parece cada vez mais refém da própria violência.
Por Mário Marcovicchio | Jornal25News – Independente
Centro Histórico de São Paulo, 11de outubro de 2025
🌆 Um fim de tarde comum, uma noite que virou tragédia

Naquela terça-feira, 30 de setembro, o advogado Luiz Fernando Pacheco saiu de casa sorrindo.
Tinha combinado uma cerveja com amigos, o que para ele era mais do que um lazer — era um reencontro com a vida, com o prazer das conversas e dos velhos colegas do Direito.
Segundo sua mãe, dona Norma, ele estava feliz, leve, quase menino outra vez.
Foi essa alegria que os amigos Renato De Vitto e Daniel Machado, também advogados, viram quando se encontraram com ele no bar 155, próximo ao Fórum da Barra Funda, ponto clássico de quem respira leis e tribunais.
Pacheco falava com carinho dos pais idosos, dos filhos Âmbar e Tom, que moram fora do Brasil, e da vida, com aquela emoção que só quem ama demais consegue ter.
“Amor nunca é demais”, ele disse aos amigos, entre risadas e lembranças.
🍺 As últimas horas
Depois de três horas de conversa, risadas e cervejas, os amigos voltaram para casa.
Mas Pacheco quis seguir mais um pouco.
Pegou um táxi e foi até o Mac Fil, bar tradicional na Rua Maria Antônia — bem perto da universidade Mackenzie, onde se formou em Direito.
Lá, tomou mais uma cerveja, cantou baixinho, ouviu música no celular e, fiel ao seu estilo boêmio, ficou até o bar fechar.
Saiu por volta das 23h30, andando sozinho, tranquilo, voltando para casa na Rua Piauí.
Estava a poucos metros do lar — e a minutos de uma tragédia.
💔 A violência que não escolhe vítima
As câmeras mostram Pacheco alegre, de braços abertos, cantando no caminho.
Mas também mostram o instante em que o destino muda: um casal de assaltantes o vê apoiado num poste — ele caminhava com dificuldade por causa de uma prótese no quadril, usada há mais de 15 anos.
Os criminosos tentam roubar seu celular. Ele reage.
O homem o agride, ele cai no chão e bate a cabeça com força.
Levam o telefone e um relógio — uma falsificação, segundo a família.
Poucos minutos depois, Pacheco convulsiona no chão.
O Samu chega, leva-o à Santa Casa, mas ele não resiste.
Morreu por traumatismo craniano, nas primeiras horas de 1º de outubro.
🕯️ Um homem da Justiça, vítima da injustiça
Luiz Fernando Pacheco tinha 51 anos.
Foi advogado criminalista respeitado, ex-presidente da Comissão de Prerrogativas da OAB-SP, fundador do IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa) e integrante do grupo Prerrogativas — sempre defensor dos direitos humanos e das garantias individuais.
“Ele era intenso, corajoso, solidário. Um cara de princípios, que acreditava na justiça social”, disse o amigo e defensor público Renato De Vitto.
A irmã, Ana Paula Pacheco, professora da USP, foi quem reconheceu o corpo no IML.
E desabafou:
“Meu irmão foi morto por pessoas que não tinham nada — como muitas das que ele defendeu. A sociedade brasileira precisa costurar o abismo entre riqueza e pobreza. Ele era sensível às injustiças do mundo.”
📚 O advogado, o escritor, o homem
Apaixonado por poesia e literatura, Pacheco lançou em 2023 o livro de contos “Pau de Cavalo”, que falava justamente de violência urbana e desigualdade social.
Era seu modo de transformar dor em palavra e revolta em arte.
Durante o mensalão, ganhou destaque nacional ao defender José Genoino.
Teve coragem de enfrentar o então ministro Joaquim Barbosa, e foi retirado à força do plenário do STF — um ato que, segundo os colegas, o transformou num símbolo de resistência da advocacia.
Era chamado carinhosamente de “Pachecão”.
Boêmio, generoso, amigo, com um coração imenso — desses que acreditam que ainda dá pra mudar o mundo.
😢 A cidade que sangra
O crime que tirou a vida de Luiz Fernando Pacheco é mais um retrato da São Paulo que perdeu o sono.
Uma cidade que cresce, se moderniza, mas que convive com o medo, a desigualdade e a sensação de que ninguém está seguro — nem mesmo quem dedicou a vida à Justiça.
Nas redes sociais, colegas, magistrados, promotores e estudantes expressaram dor e indignação.
A morte do advogado virou símbolo de uma sociedade em desequilíbrio, onde a rua já não é o espaço do cidadão, mas o território da insegurança.
“Ele acreditava que podia voltar a pé pra casa. E foi morto por isso”, escreveu a irmã, em um post emocionado.
🚨 Reflexão final
A violência que tirou Pacheco não matou apenas um homem — matou uma ideia de cidade.
A cidade onde se podia andar, conversar, voltar pra casa, viver sem medo.
A sociedade paulista, e com ela o Brasil inteiro, precisa reagir.
A cada novo crime, a cada vida perdida, cresce a certeza de que o Estado precisa retomar as ruas — e devolver à população o direito básico de ir e vir.
💬 A indignação é geral. São Paulo, que já foi sinônimo de progresso e trabalho, hoje se vê diante do seu maior desafio: sobreviver à própria violência.
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