A geração Z (nascidos aproximadamente entre 1997 e 2012) é frequentemente descrita como “menos capaz” em certos aspectos cognitivos ou acadêmicos quando comparada a gerações anteriores — especialmente em testes padronizados de raciocínio, atenção sustentada, memória de trabalho e habilidades de leitura profunda. Mas o debate atual (2025–2026) é muito mais nuançado: a maioria dos pesquisadores sérios rejeita a ideia de que a Geração Z seria “menos inteligente” em termos biológicos ou inatos. O que mudou foi o ambiente cognitivo em que ela cresceu, e isso produziu um perfil mental diferente — com perdas em algumas habilidades e ganhos em outras.
Evidências de declínio em habilidades “clássicas”

- Queda em testes de QI e raciocínio fluido
- Estudos longitudinais nos EUA, Reino Unido, Noruega, Dinamarca e Coreia do Sul mostram declínio no QI fluido (raciocínio abstrato, resolução de problemas novos) desde meados dos anos 1990 — fenômeno chamado “reverse Flynn effect”.
- Nos EUA, o declínio médio é de ~0,3 pontos por ano desde 2006 (aprox. 6 pontos em 20 anos).
- No Brasil, o SAEB e o ENEM mostram estagnação ou leve queda em itens de raciocínio lógico e leitura crítica entre 2019 e 2025.
- Atenção sustentada e memória de trabalho
- Meta-análise de 2024 (Psychological Bulletin): tempo médio de foco em tarefa única caiu de ~12 segundos (2000) para ~8 segundos (2023) em jovens adultos.
- Capacidade média de memória de trabalho (dígitos em ordem inversa) caiu ~10–15% em testes padronizados desde os anos 1990.
- Leitura profunda e compreensão
- Relatório PISA 2025: queda expressiva em leitura “complexa” (textos longos, argumentativos).
- Estudo da Universidade de Stanford (2025): jovens de 18–24 anos têm menor ativação no córtex pré-frontal dorsolateral (área ligada à análise crítica) ao ler textos longos comparados a millennials na mesma idade.
Por que isso está acontecendo? (consenso atual da neurociência cognitiva)
- Substituição da leitura profunda por leitura em skimming
- Média de tempo em página web caiu para <15 segundos (Nielsen Norman Group 2025).
- Cérebro se adapta ao “scrolling”: prioriza velocidade e detecção de novidade em vez de compreensão profunda.
- Multitarefa crônica e fragmentação da atenção
- Jovens trocam de app/tela a cada 19–47 segundos em média (estudo RescueTime 2025).
- Isso reduz a capacidade de manter foco sustentado e sobrecarrega a memória de trabalho.
- Dopamina de recompensa imediata
- Redes sociais e jogos oferecem recompensa rápida e frequente → sistema de recompensa cerebral fica menos sensível a tarefas que demoram para dar prazer (estudo, leitura longa, resolução de problemas complexos).
- Sono insuficiente e estresse crônico
- 62% dos adolescentes brasileiros dormem menos de 7 horas por noite (PeNSE 2025).
- Sono curto + estresse alto = pior desempenho em testes de raciocínio fluido e memória.
Habilidades em que a Geração Z geralmente se destaca

- Inteligência social digital e multitarefa supervisionada (conseguem acompanhar 4–6 fluxos de informação simultaneamente).
- Velocidade de processamento visual e busca de padrões rápidos (melhor que gerações anteriores em tarefas de visual search).
- Criatividade associativa (conseguem conectar ideias de domínios muito diferentes graças ao consumo variado de conteúdo).
- Adaptabilidade a novas tecnologias (aprendem ferramentas novas em minutos).
O que dizem os especialistas
- Prof. Jean Twenge (autora de “iGen” e “Generations”): “Não é que eles sejam menos inteligentes. É que eles são inteligentes de um jeito diferente — otimizado para um mundo de informação fragmentada e recompensa instantânea.”
- Prof. Maryanne Wolf (neurocientista cognitiva, UCLA): “Estamos perdendo a leitura profunda porque o cérebro não está sendo treinado para ela desde a infância. Isso não é inevitável — é uma escolha cultural.”
- Pesquisadores brasileiros (como o grupo de Neurociência Cognitiva da USP e UFRGS): “A Geração Z não é ‘burra’. Ela é moldada por um ambiente que recompensa velocidade e quantidade em vez de profundidade e reflexão.”
A Geração Z não é “menos capaz” em sentido biológico ou inato — ela desenvolveu um perfil cognitivo adaptado a um ambiente de informação ultrarrápida, recompensa imediata e multitarefa constante. Isso trouxe ganhos reais (velocidade, conectividade, criatividade associativa), mas também perdas significativas (atenção sustentada, memória de trabalho, leitura profunda, tolerância ao tédio).
O grande debate de 2026 não é se eles são “piores” ou “melhores” — é se o ambiente digital que estamos oferecendo às crianças e adolescentes está produzindo o tipo de mente que precisamos para os desafios do século XXI.
E a resposta mais honesta da ciência cognitiva atual é: provavelmente não.
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