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Faria Lima começa a medir ‘risco PCC’ em investimentos

 

Especial

Faria Lima começa a medir ‘risco PCC’ em investimentos

Infiltração do crime organizado vira pauta central entre empresários, economistas e fundos no coração financeiro do Brasil.

30.06.25


📍 Risco sistêmico: o crime organizado na economia formal

Conversas sobre o crime organizado, antes restritas ao noticiário policial, tomaram conta dos escritórios de advocacia, bancos e gestoras da Faria Lima. O PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho agora preocupam diretamente empresários, gestores de fundos — inclusive internacionais — e economistas.

Apuração da Folha de S.Paulo confirmou: a atuação das facções em setores legais da economia deixou de ser exceção. Empresários, como Rubens Ometto (Cosan), alertam que o crime criou uma “concorrência desleal” com quem atua dentro da lei. E o temor é direto: “Se os criminosos comprometerem grandes companhias paulistas, perde-se o Brasil.”


🕸️ Facções nas engrenagens do sistema

As facções hoje disputam espaço em setores variados:

  • Refino e distribuição de combustíveis
  • Mercado imobiliário e FIPs
  • Fintechs e serviços financeiros
  • Empresas de transporte público e privado
  • Serviços urbanos: internet, saúde, odontologia, limpeza e lixo

Casos concretos já foram detectados. A Operação Fim da Linha revelou a atuação do PCC em duas empresas de ônibus que chegaram a transportar mais de 700 mil passageiros por dia em São Paulo. A estratégia foi sofisticada: as empresas foram constituídas legalmente, disputaram concessões públicas e venceram.

No setor imobiliário, fundos de investimento (FIPs) passaram a ser usados para lavar dinheiro, com recursos de origem lícita e ilícita convivendo nos mesmos papéis. Um advogado empresarial relatou à Folha que seus clientes estão preocupados em fazer negócios, sem saber, com empresas controladas por facções.


🎓 Seminário internacional sobre crime organizado: uma agenda de ação global

Nos dias 24 e 25 de junho de 2025, o Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP), por meio da Escola de Segurança Multidimensional (ESEM) e da Cátedra Oswaldo Aranha de Segurança e Defesa (COA), promoveu o seminário internacional “Crime Organizado e Mercados Ilícitos no Brasil e na América Latina: Construindo uma Agenda de Ação”. O evento, que reuniu mais de 300 participantes e especialistas, foi um marco na discussão sobre as complexas relações entre organizações criminosas e a economia globalizada.

Durante o seminário, o promotor de justiça Giovanni Melillo, da Procuradoria Nacional Antimáfia da Itália, falou sobre a crescente sofisticação das facções criminosas e a internacionalização do crime. Melillo ressaltou como as organizações criminosas têm se integrado ao mercado global, usando empresas legítimas para ocultar suas atividades ilícitas e infiltrar-se em mercados financeiros e imobiliários.

A 1ª Pesquisa Nacional da Demanda de Bens e Serviços Ilícitos, anunciada no evento, buscará coletar dados inéditos sobre o consumo de produtos ilegais, como cigarros e eletrônicos, e sua circulação no mercado informal, com o objetivo de embasar políticas públicas para enfrentar a economia ilegal.

O seminário também lançou um programa de bolsas de doutorado, focado no mercado ilícito de cigarros eletrônicos e produtos de tabaco e nicotina, especialmente no contexto da Tríplice Fronteira, onde o crime organizado encontra terreno fértil para expandir suas operações.


📉 Impacto nos negócios e na confiança

A Folha ouviu analistas que afirmam que, por mais difícil que seja, é necessário medir esse “risco crime” nos investimentos. O impacto vai além da segurança pública: envolve risco regulatório, perda de previsibilidade jurídica e erosão da concorrência saudável.

Empresas tradicionais sofrem: a Light perdeu 58 mil metros de cabos furtados só entre janeiro e abril de 2025. A Copagaz deixou de vender botijões em comunidades dominadas por milícias. Mas o novo modelo das facções é ainda mais perigoso: elas entram para competir com empresas legais — e vencem licitações.


🛡️ A resposta institucional: lenta, mas em curso

O promotor Fábio Bechara, do Gaeco-SP, explica que as facções mudaram de tática desde a pandemia. Hoje, preferem usar as brechas da lei, criando empresas de fachada sofisticadas — e até operacionais — para lavar dinheiro.

O procurador Lincoln Gakiya, há mais de 20 anos investigando o PCC, afirma:

“As facções estão constituindo empresas que operam na economia formal. Não é mais boato.”

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, reforça o alerta: o país vive um momento delicado. A resposta proposta inclui a criação de um Gaeco Nacional, para unificar o combate às facções infiltradas no mercado. O problema já é debatido em instituições como o CDPP e o BID, que lançou em dezembro a “Aliança para a Segurança, Justiça e Desenvolvimento”.

O presidente do BID, Ilan Goldfajn, resume:

“É preciso cortar o oxigênio do crime organizado: o dinheiro.”


🔍 Conclusão: um risco que redefine o ambiente de negócios

A presença de facções na economia formal já não é hipótese — é realidade. Da Faria Lima ao Congresso, passando pelo setor de combustíveis, transportes e fundos de investimento, o PCC e outras organizações criminosas se sofisticaram e encontraram espaço nas brechas da regulação brasileira.

A resposta exige mais que polícia: precisa de integração entre Estado, setor financeiro, mercado e agências de controle, com inteligência financeira e rigor legal. Caso contrário, o Brasil corre o risco de perder a confiança de investidores e empresários — e com ela, a estabilidade da sua economia.


Reportagem investigativa — São Paulo, 29 de junho de 2025
Com informações de Folha de S.Paulo, Revista Oeste, Agenda do Poder, UOL e USP.


 

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